12 de abril de 2016

O colo de mãe resiste

Você já deve ter ouvido falar por aí de uma série de "regras irrevogáveis" para o carregamento de bebês com o auxílio de um pano, vulgarmente conhecido como Babywearing.

Há quem invista tempo e energia em provar que existe somente um tipo de tecido recomendado. Há quem invoque a profissionalização urgente da prática. Há quem sugira que seu próprio conjunto de crenças é a única e exclusiva possibilidade para 100% dos bebês. Há quem diminua e descredibilize a experiência de outras abordagens para o carregamento dos pequenos.

O fato é que, como atuantes da prática comunitária que favorece o carregamento de bebês através das múltiplas possibilidades de aparatos, prática que que tanto amamos, temos visto discursos autoritários e rígidos ganhando força aqui no Brasil, supostamente apoiados por "estudos científicos". 

Se por um lado a ampliação do conhecimento técnico humano sobre qualquer área nos permite evoluir e melhorar (e por isso somos gratos), se por um lado ainda a prática comercial da fabricação e venda de carregadores de bebê, bem como consultorias para o tema, tem representado fonte de renda e empoderamento para muitas mulheres mães (e por isso igualmente lutamos), por outro essa parcela tecnocrata do carregar bebês parece ter perdido de vista o básico, sob discursos que escorregam pelo fetiche de conquistar e dominar o que é de todos.

Mas o colo de mãe resiste.

Mãe e Bebê no Alaska - fonte da imagem

Desculpem-nos pesquisadores e grandes estudiosos da ciência, e deêm nos licença os porta-vozes comerciais dessas supostas regras, mas é (antes de tudo!!) natural e intuitivo, o hábito milenar de se carregar os bebês no colo com o auxílio de um pano. E isso se expressou nas mais variadas culturas ao longo da existência da humanidade. E isso foi fundamental para a nossa sobrevivência do amplo ponto de vista da evolução. E isso foi, e é ainda, praticado por inúmeras mulheres mães, em inúmeros tipos de carregadores com inúmeras variedades de tecidos e posições inúmeras para seus bebês.

O nome dessa sistematização e imposição de prática única é colonialismo. 

E o colonialismo, como sabemos, tem seus requintes racistas e opera em benefício próprio. E o colonialismo, como sabemos, atua perniciosamente vendendo um suposto benefício para todos, mas mascara o apagamento das possibilidades já vivenciadas e construídas por muitos. O colonialismo, como sabemos é verborrágico, insistente e usa o medo como forma de controle. E naturalmente, se contrariado, costuma apelar para a violência explícita.

Podemos interpretar essa necessidade de colonizar a prática do outro como uma grande paixão narcisista por sua própria atividade, o que viria de um desejo genuíno, mas falacioso, de fazer o bem. Ou podemos ainda entender que as necessidades mercadológicas dentro do crescente mercado de carregadores e consultoria - enquanto atividade comercial - tem seu papel atuante nos discursos rígidos insurgentes. Mas essas motivações pouco nos importam.

Nos importa ampliar a reflexão, reforçando nossa missão de empresa atuante no mercado e na cultura do colo de mãe. O colo resiste.

Crianças no Vietna - Foto Anna Aleksandrova - National Geographic

E para tanto levantamos aqui o exemplo da controvérsia que permeia os Aguayos e Chumpis, tradicionais formas de enrolamento e carregamento de bebês e crianças Andinas. Em sua pesquisa de doutorado a socióloga boliviana Ivonne Martinez relata como as tendências européias para os cuidados de puericultura influenciaram as tradições do povo andino-boliviano. "Componentes psicomotores y psicosociales del aguayo y el chumpi en la crianza infantil" é o livro que revela a existência de uma etno-medicina, ligada à etno-andino-psicologia. Abordagens para o tratamento do assunto de carregar bebês no colo que estão para além das recomendações técnicas. Que tem à ver com o cuidado físico e emocional de crianças em seus contextos, no caso desse estudo em específico, de herança Andina.

Alguns trechos traduzidos do livro da professora Ivonne Ramirez você verá aqui, no blog da Sampa Sling.

Queremos com esse exemplo pontuar que culturas foram totalmente dizimadas por essa visão eurocêntrica do mundo. De acordo com Ramirez, na tradição Boliviana de carregar bebês no colo não foi diferente.

Bebê Boliviano - foto NPR


À despeito das tradições milenares dos indígenas brasileiros e seus bebês na tipóia, para a mãe contemporânea e especialmente urbana, a comunidade de carregamento de bebês no colo aqui no brasil é relativamente jovem. 

Se por um tempo estávamos trabalhando pelo resgate da prática contra os interesses de grandes indústrias que lucram não apenas com aparatos caríssimos e requintados para o carregamento de bebês mas também com as potenciais consequências da falta de colo, vínculo e amor, agora temos que resistir também aos discursos daqueles que, como nós, também acreditam nos benefícios dos facilitadores de colo: mas insistem no monopólio de práticas e no apagamento da história e cultura alheia.

Só que o colo de mãe resiste.

Mãe e bebê na Etiópia - Fonte da Imagem

Não aceitamos que a ancestralidade, pluralidade e liberdade do carregamento de bebês no colo, através do mundo inteiro, seja invadida por aquilo que supostamente rezam as cartilhas científicas da Europa apenas. Protegeremos o a parte que nos cabe da cultura de colo Brasileira, de modo que ela possa se desenvolver dentro de suas peculiaridades e heranças multi culturais. Nosso modo de assim fazê-lo é mantendo nosso compromisso diário de estimular e apoiar o vínculo entre pares, os humanos dessas relações, o amor, a finalidade e não apenas o meio.

Renovamos aqui os votos da Sampa Sling em manter-se como referência em carregadores de pano em esfera nacional, contribuindo para a criação, implantação e disseminação do carregar bebês brasileiro, com respeito às heranças culturais, investimento no empoderamento feminino, aprendizagem constante, ampliação de acesso e liberdade baseada em escolhas informadas para cada binômio peculiar de mãe e bebê. 

Mãe e bebê Ka'apor - Fonte da Imagem